Fazer da Estrada uma Saída
Caminhar para silenciar o ruído e sobreviver aos meus próprios pensamentos
8 de fev de 2026
Quando a minha mente se torna demasiado barulhenta, eu caminho. Não pelo fitness, não pela produtividade, não para chegar a um destino — mas para escapar ao ruído dentro da minha cabeça. Trato a estrada como um sinal de saída que brilha silenciosamente quando tudo o resto parece estar a fechar-se sobre mim. Caminhar é o único momento em que os meus pensamentos abrandam o suficiente para eu respirar sem me sentir culpado por isso.
Há algo de apaziguador em pôr um pé à frente do outro. Dá ao meu corpo uma tarefa simples quando a minha mente está emaranhada em perguntas que não sabe responder. Enquanto o pavimento se estende à minha frente, deixo os meus pensamentos transbordar sem tentar corrigi-los. Não os escrevo num diário. Não os analiso. Deixo-os apenas existir, a flutuar ao meu lado enquanto avanço. Às vezes, essa é a única forma de paz que consigo alcançar.
Quando a depressão aperta o seu cerco, ficar parado parece perigoso. Os meus pensamentos viram-se para dentro, afiados e implacáveis, reproduzindo memórias, dúvidas e cenários catastróficos em ciclo. Caminhar interrompe esse ciclo. O ritmo dos meus passos torna-se uma âncora silenciosa, puxando-me de volta para o meu corpo quando a minha mente quer desaparecer dentro de si mesma. Cada passo parece um pequeno ato de resistência contra o peso que carrego.
Nos dias em que a Perturbação Bipolar II traz uma energia irrequieta ou pensamentos acelerados, caminhar ajuda a drenar o excesso sem julgamentos. Não tenho de dar explicações a ninguém. Não tenho de estar «ligado». A estrada não pergunta por que razão lá estou ou para onde vou. Simplesmente aceita-me como sou — pensamentos desarrumados, coração pesado, passo irregular. Há dias em que caminho depressa, como se estivesse a fugir de algo. Outros dias movo-me lentamente, mal levantando os pés, mas continuo a andar de qualquer forma.
Há momentos em que o mundo parece estranhamente calmo enquanto caminho. O som do trânsito, o sussurro das folhas, vozes distantes — tudo se funde num zumbido de fundo que me recorda que ainda faço parte de algo fora da minha cabeça. Mesmo quando me sinto desligado das pessoas, o ato de caminhar pelo mundo ajuda-me a lembrar que ainda existo nele. Estou aqui. Estou a mover-me. Não estou preso, mesmo que pareça assim por dentro.
Não pretendo fingir que caminhar resolve tudo. Não apaga as minhas perturbações nem limpa magicamente os meus pensamentos. Mas cria espaço. Espaço entre mim e o tormento. Espaço para sobreviver ao momento sem ceder a ele. Por vezes, esse espaço é a diferença entre sentir-me encurralado e sentir que tenho uma escolha.
Tratar a estrada como uma saída não significa que estou a fugir da vida. Significa que estou a escolher ficar. Cada caminhada é uma promessa silenciosa que faço a mim próprio: *Vou continuar, mesmo que tudo o que consiga fazer hoje seja avançar um passo de cada vez.* E, por agora, isso basta.